25 de abr de 2015

Choro, melodia da alma carioca, por Valéria del Cueto

"Em meados do século XIX na capital do Império, surgiu uma forma  “chorosa” de interpretar as músicas da moda na Europa" 
Choro, melodia da alma carioca
A alma carioca tem tradução musical. E não é o samba. O samba é o seu coração palpitante. A alma musical carioca é o Choro. Gênero musical urbano, popular e erudito, definitivamente incorporado ao “phisique-du-role” da Cidade Maravilhosa.
No ano das comemorações de 450 de seu nascimento, o  Rio de Janeiro ganha um presente há muito esperado. Sua Casa do Choro está inaugurada com tudo o que tem direito nesse megaferiado turbinado por aqui com o  Dia de São Jorge. 23 de abril também é o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nascimento de seu maior representante, o genial Pixinguinha. Desde 2000 o projeto vem sendo desenvolvido pelo Instituto Casa do Choro, com a criação da Escola Portátil de Música, capitaneada por nomes como Luciana Rabello e Maurício Carrilho.
* http://wp.me/p2Eomp-O1 é um playlist do que falamos acima e muitos exemplos deliciosos
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com
 E3- ILUSTRADO - SABADO 25- 04-2015

Temeridade, por Gabriel Novis Neves


Temeridade
Ser torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas do Rio de Janeiro é uma temeridade para os portadores de cardiopatias ou maiores de cinquenta anos de idade. 
Quando imaginava ter visto tudo em futebol, inclusive acompanhando o Brasil perder em seu território duas Copas do Mundo, a primeira com um público jamais alcançável em jogos de futebol (duzentos mil torcedores) e a segunda pelo inacreditável placar de 7x1, fui surpreendido por um jogo cuja definição só foi possível após interminável cobrança de pênaltis - em que os vinte de dois jogadores participaram para decidir o resultado final da partida em 9x8! 
Foram os minutos mais longos que me recordo já ter vivido. 
Mesmo sabendo que o importante no esporte é competir, um bom resultado é imprescindível à saúde emocional e física de um torcedor apaixonado. 
O clímax da emoção aconteceu quando o bom goleiro do Fluminense foi obrigado a cobrar o último pênalti da segunda série, ou prorrogação do seu time. 
Treinado para defender pênaltis, quis as regras do jogo que ele fosse a opção para marcar o gol da vitória ou o de mais uma prorrogação. 
Para sorte dos botafoguenses, ele ajeitou a bola na marca do pênalti e bateu um excelente tiro de meta, isolando a bola nas arquibancadas do Estádio Newton Santos! 
A vez agora era do nosso goleiro, que durante os noventa minutos regulamentares do jogo não conseguiu defender o pênalti batido pelo nosso adversário, causador da prorrogação para decisão por pênaltis.
Chutou a bola rasteira e com pouca força, muito bem colocada nas redes do adversário. Era o gol que classificava o time da Estrela Solitária para o jogo final do falido e desmoralizado campeonato carioca de futebol. 
Eleito o herói do jogo memorável, confessou que nunca havia treinado ou batido um pênalti na sua carreira profissional. 
Estava escrita mais uma dessas histórias que só acontecem ao Fogão.

24 de abr de 2015

O homem e a máquina, por Gabriel Novis Neves

O homem e a máquina 
O avanço extraordinário da tecnologia nos últimos anos me levou a escrever artigos dizendo que a máquina tinha, finalmente, vencido o homem. 
Com o desastre do avião alemão nos Alpes franceses e a divulgação dos resultados das primeiras investigações, mudei meu conceito. 
O homem venceu a máquina ao derrubar o mais pesado que o ar, e que voa com toda segurança apoiado na mais moderna tecnologia. 
Após o atentado terrorista de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas em Nova York, os técnicos em segurança de voo blindaram a porta de acesso à cabine dos pilotos - ela só poderia abrir por dentro. 
Pelas informações até agora recebidas, o copiloto, em um momento de total insanidade mental, e aproveitando por minutos a saída do comandante da cabine da aeronave, fechou e travou a porta blindada e desligou o piloto automático. 
Com o mancho nas mãos embicou para baixo o Airbus A320 em direção às montanhas do território francês, não atendendo aos apelos do comandante para entrar na cabine de comando. 
Era o homem vencendo a tecnologia. 
Como explicar um ato em que cento e quarenta e nove passageiros e tripulação são cruelmente sacrificados? 
As vítimas - dezenas de crianças, estudantes, trabalhadores e idosos - tiveram suas vidas ceifadas por um ato que traumatizou o mundo. 
O desventurado jovem piloto de há muito trabalhava em “morte cerebral” sem que ninguém percebesse, aguardando o instante ideal para concretizar a sua morte física. 
Os instrumentos do avião não registraram nos momentos que antecederam ao choque com a montanha nenhum sinal que revelasse alterações das suas funções vitais, como distúrbios da respiração, pulso e pressão arterial. Tudo aconteceu em silêncio total. 
Nenhuma mensagem ou uma palavra sequer, afastando a hipótese de suicídio, que é sempre um ato solitário. 
Com certeza novas medidas de segurança serão adotadas nas máquinas voadoras, mas, o que necessitamos mesmo é de monitores para entenderem o nosso ainda indecifrável cérebro.

23 de abr de 2015

Mitômanos, por Gabriel Novis Neves

Mitômatos 
Assim são conhecidos os viciados em mentira, ou seja, quando esta se torna uma compulsão. 
É considerado um distúrbio de personalidade. Estatisticamente cem entre mil adultos apresentam essa deformação. 
Seus portadores criam sempre histórias mais ou menos verossímeis de modo que suas mentiras sejam, na maioria das vezes, críveis. 
A medicina ainda desconhece tratamento para esse tipo de comportamento e imagina-se que ele esteja ligado a alguma falha no sistema nervoso central. 
O grave é que no dia a dia algumas vezes nos deparamos com pessoas com essa patologia, às vezes até em altos cargos da vida pública e privada. 
Uma das características é que a mentira sempre lhes favorece. Embarcam fundo no mundo fantasioso por elas criado e progressivamente não mais distinguem o real da mentira. 
Pessoas com esse perfil, quando vinculadas ao mundo político, causam profundos malefícios à sociedade. 
Como são despidas de autocrítica, imaginam-se distribuindo um manancial de vivências espetaculares que julgam somente suas e absolutamente intangíveis para os outros simples mortais. 
Estão sempre prontos a se beneficiarem de tudo e de todos, por menores que sejam as benesses, e possuem grande poder de persuasão para os menos avisados. 
Insuflados pela sede de poder levam suas viagens fantasiosas a todo tipo de megalomania. 
O pior é que as pessoas por elas governadas, confusas, também tendem a entrar nesse clima de bravatas quixotescas antes de se tornarem anestesiadas. 
As diversas mídias, inseridas no mercado de consumo, facilmente manipuladas pelas razões óbvias, acabam contribuindo para a divulgação desse mundo onírico e mentiroso. 
A história tem nos mostrado o caos em que mergulharam e continuam mergulhando povos liderados por mitômanos e por outros tipos de personalidades psicóticas. 
Para nós médicos, verdadeiros desnudadores da alma humana, fundamental para o entendimento das diversas patologias, é bem mais fácil o reconhecimento desses pobres falsários da mente. 
Isso, a bem da verdade, para aqueles que ainda se dedicam a elaborar uma boa e longa anamnese, e a um importante relacionamento médico-paciente daí decorrente. 

22 de abr de 2015

Luto na cultura, por Gabriel Novis Neves



Num mesmo dia - 13 de abril de 2015 -- a cultura mundial perdeu dois de seus expoentes mais expressivos.

Um, no Uruguai, na figura do grande filósofo, poeta, escritor, documentarista, Eduardo Galeano. 

Outro, na Alemanha, Günter Grass, cujos livros tinham sempre um contexto político. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 pelo seu livro “O Tambor”, de 1959 - o primeiro de uma trilogia que narra a história da ascensão do nazismo. 

Galeano, nos seus cinquenta anos de carreira, deixou inúmeras obras de vulto, tanto ficcional quanto factual. 

“As Veias Abertas da América Latina: Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente”, livro datado de 1971, foi uma das obras mais polêmicas de Galeano. 

O livro descreve a submissão da América Latina e de suas riquezas ao colonialismo europeu no passado e, a partir do século XX, à Grã Bretanha e aos Estados Unidos. 

O atual presidente americano, Barack Obama, recebeu, em 2009, do então presidente da Venezuela, Hugo Chaves, uma cópia da obra, o que aumentou em muito a sua venda no mundo. 

As frases e pensamentos de Galeano ficaram famosos, sendo que, para mim, a definição de utopia é uma das mais inteligentes já registradas: “A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos”. 

Caminho dez passos e o horizonte dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: “Para que eu não deixe de caminhar”. 

Outra de suas frases que muito me agrada: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”. 

Acredita-se que tenha sido o que fez, não só com o seu corpo, mas também com sua cabeça, uma das mais privilegiadas deste século. 

Günter Grass, um dos mais importantes escritores da Alemanha, foi chamado de “consciência moral da esquerda da Alemanha pós-guerra”. 

Era considerado o porta voz literário de sua geração durante a época nazista e descreve-se a si mesmo como um devoto da iluminação num momento em que a razão estava ausente. 

Recentemente, tornou-se muito polêmico ao confessar ao mundo a sua participação, aos dezessete anos, na Waffen- SS, organização nazista da época. Isso é relatado no seu livro “Descascando Cebolas”, de caráter autobiográfico.

Neste livro, Günter Grass revela um sentimento de culpa e se justifica pela pouca idade quando da sua participação na guerra junto aos nazistas.

O mesmo sentimento aparece em uma frase no seu livro “O Tambor” - “não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança” – personagem do garoto Oskar. 

“Maus Presságios” é outro livro que se revela autobiográfico e sua relação com o sentimento de culpa, lançado do Brasil em 1992. 

Em 2012 Grass publicou um panfleto com o título “O que deve ser dito”, onde apontava Israel como uma ameaça à paz mundial, pois alertava que o ocidente estava acomodado com relação ao programa nuclear daquele país. Foi considerado “persona non grata” em Israel. 

A literatura mundial está de luto. Calou-se a “voz crítica da América Latina”. Calou-se a “consciência crítica da Alemanha”.


21 de abr de 2015

Hospital psquiátrico, por Gabriel Novis Neves

Hospital psiquiátrico 
Em 1957 foi inaugurada em Cuiabá uma ala do futuro hospital psiquiátrico - único no Estado não dividido, no distrito do Coxipó da Ponte, com o nome de Hospital Colônia de Alienados. 
Houve parcos recursos federais para o início da obra, ficando o custeio e a gestão por conta do pobre Estado de mais de um milhão de quilômetros quadrados. 
Em 1966 o hospital era um imenso depósito de doentes mentais, muitos acorrentados, isolados em celas fortes, vivendo como todos os demais internos em condições sub-humanas. 
Faltava tudo para o funcionamento do manicômio: equipe especializada de saúde, medicamentos, leitos, alimentação e segurança. 
A promiscuidade entre homens, mulheres e crianças, maltratava a sensibilidade dos médicos, especialmente os mais jovens, e afastava a sociedade daquele hospital mal assombrado pelo terror. 
Com o apoio decisivo e incondicional do jovem governador da época, Pedro Pedrossian, e do seu Secretário de Saúde Clóvis Pitaluga de Moura, recursos e autonomia foram ofertados para a recuperação da chamada vergonha mato-grossense. 
Naquela ocasião Pedrossian sancionou uma lei estadual dando o nome de Hospital Adauto Botelho à casa desumanizada. 
O velho depósito de pacientes irá fechar por força de lei federal e seus infelizes pacientes jogados nas ruas, já que os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) não funcionam na prática. 
Falar que esses pacientes irão para hospitais da rede pública é uma falácia, pois não há hospital público para atender a demanda atual, e novos estabelecimentos ainda estão nas pranchetas de municípios sem recursos. 
A própria coordenadora de saúde mental do município, reconhece que “não foi feito nenhum planejamento na época do fechamento do Pronto Atendimento do Adauto junto ao Estado para lidar com a questão”. 
Hoje a gestão é do falido município, mas, o Estado e o governo federal têm responsabilidades no funcionamento desse importante setor especializado, tão carente de equipe multidisciplinar para suas atividades. 
A situação do doente mental em nosso estado é gravíssima! 
Seria possível o surgimento de um contemporâneo Pinel por estas bandas?