2 de set de 2015

Vivendo na prorrogação, por Gabriel Novis Neves

Vivendo na prorrogação 
Envelhecer é bom! Do alto dos meus oitenta anos eu posso dizer que a vista aqui de cima é até bem bonita! 
Após completar os tão esperados 80 anos, mesmo enfrentando uma crise aguda de pangastrite (inflamação total da mucosa do estômago), eu percebi que dá para acrescentar alguns anos àqueles já bem vividos. 
Claro, deve ter sido o meu lado psicossomático aflito com a proximidade da finitude. 
A velhice não é lá essa coisa maravilhosa, porém, a alternativa aos longos anos vividos é bem pior... 
Oscar Niemeyer dizia que a velhice era uma merda, mas levou um bom tempo para sair dela – aos 105 anos. 
Alguns mitos atormentam os velhos, como o de nunca ter falhado com uma mulher. Pertencemos a uma geração extremamente machista, incapaz de confessar qualquer tipo de fracasso nesse setor. Para que desmentir? Inventaram até um remédio para isso!  
Se o fabricante do Viagra tivesse conversado antes com um velho, a nova droga teria como propaganda estimular a libido, além de promover a volta da potência. 
Claro, as vendas ainda seriam muito maiores caso as expectativas se comprovassem.  
Meus contemporâneos, na sua quase totalidade, perderam o tesão e,  não somente o sexual, mas, principalmente, o tesão pela vida. 
As pessoas vão se tornando apáticas, e logo os estímulos cerebrais que comandam todos os outros, vão se atrofiando na sequência.  
Não por acaso é sabido que na velhice as paixões, quando surgem, são muito mais violentas que as de jovens. 
Outros da minha idade projetam seus apetites na gastronomia. Comem de doces a churrascos sem dó nem piedade, aumentando os seus diâmetros abdominais. 
Em compensação, ingerem trinta comprimidos de fármacos por dia e, inadvertidamente, creem que os mesmos vão curar todos os seus males, esquecendo-se assim dos graves efeitos colaterais presentes em todas as drogas. 
O velho precisa manter o interesse pela vida e se livrar do pavor à morte. 
Difícil encontrar um velho que já não tenha batido na trave do final da existência. 
Muitos fazem coleções de stents, marca-passos, infecções, tumores amigos, ou não, e generosas cicatrizes cirúrgicas. 
O velho vive na prorrogação, mas a sorte é que fica sabendo disso quando de alta hospitalar. 
O velho só percebe a sua velhice por meio de sinais externos. A maneira como as pessoas lidam com o idoso é diferente. 
Não se iludam companheiros com os olhares e as conversas dos jovens! Muitas vezes eles querem dizer que você é a cara do seu avô, ou então, muito fofo... 
Não crie fantasias, elas são más companheiras! Tenho amigos que contrataram até “Personal Geriatra”. Aonde eles vão, o geriatra vai atrás. 
Fé companheiros! Pois já vivemos barbaridades! 
A vida pode ser bela em qualquer idade, basta um pouco de sorte e muita determinação!

1 de set de 2015

Só pra contrariar, por Gabriel Novis Neves

Só pra contrariar 
O Congresso Nacional está votando as mensagens presidenciais ao som do pagode popular “Só pra contrariar”... 
Basta vir do executivo, que a bancada do “Só pra contrariar” está votando, muitas vezes, contra os próprios interesses nacionais. 
Até então, tínhamos um Congresso do sim, aquele que aprovava tudo que chegava do Planalto, até a pedalada na “Lei da Responsabilidade Fiscal”, há anos aprovada na mesma Casa de Leis com fins moralizadores. 
Era o tempo do “Paz e Amor”. 
Em tempos duros de crise econômica, onde o próprio Ministro da Fazenda afirmou aos congressistas que o dinheiro acabou, o “Só pra contrariar”, e o Executivo que deveria nos representar, votou o inacreditável aumento de quase 80% para os servidores do Poder Judiciário. 
E como ficam os funcionários dos outros Poderes cujo aumento foi inferior à inflação? 
As consequências dessa dicotomia são as greves que estouram todos os dias, além dos estragos em setores mais importantes como educação e saúde. 
A Presidente vetou o aumento do Judiciário por falta absoluta de recursos e também por tentar manter o mínimo de isonomia entre os funcionários dos três poderes. 
O veto presidencial voltou ao Congresso e não me surpreenderei se for derrubado. 
A arrogância, a estupidez e a vaidade dos nossos políticos estão levando o país da oitava economia do mundo ao caos. 
Não aprendemos a fazer oposição, pois nossos partidos, sem ideologia, não nos representam. 
Temos um bando de oportunistas decidindo os maiores e mais graves problemas nacionais de acordo com os seus interesses pessoais, “Só pra contrariar” o seu adversário. 
Enquanto não houver um desarmamento de espíritos para uma quase impossível união nacional, só nos resta assistir o filme de terror na escuridão de dias piores.

31 de ago de 2015

Estrela cadente, por Gabriel Novis Neves

Estrela cadente 
Ao assumir o ministério da Fazenda, Joaquim Levy surgiu como o novo mandarim da nossa economia. 
Tinha como tarefa principal fazer o Produto Interno Bruto (PIB) crescer já no segundo semestre. Para alcançar esse objetivo faria um ajuste fiscal. 
A otimista Presidente garantia que isso seria uma coisa passageira. O ministro, por sua vez, prometia metas realistas, essenciais para a atração de investimentos internos e externos. 
Passado alguns meses, o homem que veio para consertar as nossas contas, começou a enfrentar um processo de desidratação na credibilidade das suas propostas terapêuticas. 
Contrariado nos seus planos, resolve flexibilizar o ajuste fiscal no seu modelo original, mandando às favas o que há pouco havia prometido sobre como recuperar o superávit primário e a credibilidade junto aos homens de dinheiro. 
Começa então a cair a estrela do competente Ministro da Fazenda. 
A equipe econômica passa a ter comando duplo com a ascensão do Ministro do Planejamento. 
O ex-todo poderoso ministro Levy já não participa de todas as reuniões com os seus colegas ministros sobre o moribundo ajuste fiscal. 
Analistas diagnosticam o enfraquecimento de Levy pelo fato de ter concretizado seu ajuste em laboratório, ignorando a realidade concreta.
Também subestimou o tamanho da crise econômica e a sua deterioração com a crise política. 
Sabemos ser impossível solucionar a crise econômica sem resolver a política. 
O técnico Ministro da Fazenda não avaliou corretamente as dificuldades para aprovar as suas propostas no Congresso. 
Quando não deveria, ficou surpreso ao constatar a queda vertical da arrecadação. 
O pior é que hoje a Presidente ouve mais o seu Ministro do Planejamento que o da Fazenda, de perfil iminentemente técnico. 
Levy depende de uma série de “se” para manter-se no cargo, o que é pouco provável. 
Como resultado, a recessão se alongará por mais tempo, provocando mais perda da receita da União. 
O desemprego e a inflação seguirão em alta e os juros em patamar estratosférico. 
Mais do que o Ministro da Fazenda, emagrece o país!

30 de ago de 2015

16 de julho, por Gabriel Novis Neves

16 de julho 
Tinha acabado de completar quinze anos de idade, quando, em um domingo à tarde, lutava para que o imenso rádio da minha casa conseguisse sintonizar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. 
A emissora, então líder de audiência no Brasil, operava em AM e, com a tecnologia da época, o “chiado” dificultava, e muito, a qualidade do som recebido nos mais distantes rincões deste país. 
Estava preparado, naquele longínquo 16 de julho de 1950, para ouvir pela primeira vez a transmissão de uma final de Copa do Mundo no recém-construído Estádio Municipal do Maracanã, no Rio de Janeiro. 
O Brasil era o franco favorito. Com um simples empate se consagraria campeão diante do Uruguai, seu adversário, tecnicamente inferior. 
No maior estádio de futebol do mundo, duzentos mil apaixonados torcedores aguardavam ansiosamente o início da partida. A vitória estava a noventa minutos... 
O país literalmente parou para a grande festa naquela tarde que prometia ser inesquecível. 
Pelas gerais, arquibancadas e cadeiras cativas, faixas, camisetas e bonés do Brasil eram vendidos com o título de Campeão Invicto do Mundo. 
A nossa seleção era dirigida pelo técnico do Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. 
Era uma seleção carioca, com seis jogadores do Vasco, dois do Flamengo, um do Fluminense, um do São Paulo e um do Palmeiras.
Alguns gênios do nosso futebol esquentavam o banco de reservas, como o imortal Nilton Santos, campeão carioca em 1948 pelo Botafogo de Futebol e Regatas. 

Nosso fraco adversário era comandado pelo líder Obdúlio Varela e dez guerreiros. 
Aquilo que parecia fácil foi se tornando, à medida que a bola rolava, em uma agonia. O primeiro tempo terminou empatado, sem nenhum gol. 
No início do segundo tempo nosso ponta direito marca o gol da ilusão. Os uruguaios não se abateram e viraram o jogo contra o vencedor antecipado, pelo clássico placar de 2x1. 
Nunca duzentas mil pessoas haviam chorado juntas, transformando o Maracanã em um imenso cemitério. 
Em Cuiabá o adolescente desligou o rádio e, como nunca, transformou-se num inveterado torcedor do Fogão. 
O domingo terminava com o sonho desfeito da conquista da Copa!

29 de ago de 2015

O próximo pode ser o seu, por Valéria del Cueto

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Era a vez do dia de estender a mão. Já ouviu falar? Isso mesmo. O tempo de distribuir, aceitar e retribuir gentileza, agir com mais leveza. Não era um dia qualquer.
Você pode ter sido recrutado para exercitar seu espírito do bem. Mas lembre-se: não necessariamente combinaram o mesmo com os demais atores das cenas cotidianas vividas e observadas no entorno.
O telefone vai tocar muito cedo. Engano. Não dedique  ao descuidado que quer encomendar umas comprinhas no mercadinho palavras impublicáveis e indesejáveis para terceiros. Amigos, conhecidos ou inimigos. Interrompendo o ritual matinal, deseje um bom dia e excelentes compras, com o recebimento dos produtos bem fresquinhos, razão da ligação para o pedido “assim que o mercado abre”, explica a voz do outro lado, já querendo puxar assunto. Seja delicado, mas desligue. O dia mal começou...
Na entrada do edifício não se abale com a ausência do porteiro para abrir trancas e trincos, não contabilizados no tempo apertado para o compromisso. Pense positivo, tudo tem uma razão. Se o responsável está ausente é por desempenhar outra tarefa, mais necessária e urgente. O cara é do bem, não é de hoje. Dedique-lhe o melhor sorriso e deseje um espontâneo e sincero bom dia. Ele e todos nós merecemos.
Se na passada rápida para sacar dinheiro o sistema estiver fora do ar, releve. Tenha calma e um andar ritmado a caminho da próxima agência. Afinal são tantos estabelecimento. No seguinte pode ser que o sistema, agora no ar, possa ser acessado. Se o equipamento não estiver em manutenção.
Dirija-se gentilmente ao balcão e informe o problema. Mesmo sabendo que a atendente certamente perguntará se o problema não é do seu cartão, ou se ele está sendo usado de forma inadequada. Nada pessoal é claro.
Cumprimente a moça, trate-a com carinho. Pense em como deve ser a vida dela. Diariamente, todos os dias. Tudo bem, ela tem salário, coisa rara hoje em dia. Mas a que preço. Faça uma boa ação. Não discuta, não reclame, nem lembre que tem seus direitos. Líquidos,  certos, porém difíceis de serem garantidos no dia a dia. Até a moça reconhece  solidária, pensando nas suas próprias demandas reprimidas e incompreendidas.
Não é fácil ser informada pelo cliente da mesa ao lado que sim, o banco voltou a receber os pagamentos da operadora de telefonia no caixa. Até janeiro de 2016. A gerente não sabia... Também – console a moça – como saber de tantas idas e vindas, ainda mais com as mudanças sucessivas e o bate cabeça da economia nacional, internacional e, quiçá, planetária.
Saia do banco com um atraso insuperável para ser administrado, mas não deixe de desejar bom dia para o segurança da agência, enrolado com um cliente mais enrolado ainda com a porta-giratória, mochilas, chaves, celulares e afins. Sorria para ele também.
O dia começa quente e abafado. O trânsito engarrafado.  Mero detalhe. Dedique um olhar acolhedor para os ambulantes que povoam suas esquinas. Precisarão de boas energias para venderem e correrem do rapa. Mesmo que não pretenda comprar nada e quase tenha tropeçado nas mercadorias tentando alcançar o espaço exíguo que serpenteia entre as ofertas eles merecem um sorriso. O ritmo do dia se espreguiça. Mais leve, menos pesado.
É nas pequenas atitudes que podemos ser melhores.  Independentemente do que vem do outro lado. Quando as coisas não vão bem, nem mesmo a vida ajuda. Se o que temos pela frente não é aquilo que sonhamos, o truque é mostrar para a vida como a gente gostaria que fosse. Começando na forma delicada de tratar a vida.
Como aqui, como agora. Neste papel que, graças a Deus, aceita tudo. Incluindo o otimismo, boa vontade e pequenos gestos de gentileza.  Amanhã ou depois experimente. Faça do seu um dia de estender a mão. E... sorria!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 29-08-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo


28 de ago de 2015

O outro dia, por Gabriel Novis Neves

O outro dia 
Nessa terceira monstruosa mobilização do povo na rua, não houve um foco de reivindicação para tamanha indignação e, muito menos, um líder. 
O que fazer com essa massa de descontentes com a situação atual de crise econômico-financeira, moral e ética que atinge todo o território nacional? 
O staff político do Planalto está de plantão permanente com a sua elite (?) de entendidos sociais para decifrar o que fazer para desarmar esta bomba de efeito retardado que poderá destruir ou retardar o crescimento da nossa nação. 
Preocupações da desvalida classe média são totalmente sem importância para o jogo do poder. 
Os manifestantes sem líder querem apenas mais ética na política, com os ladrões dos cofres públicos na cadeia, o fortalecimento do trabalho do Juiz Sérgio Moro e colaboradores do Ministério Público e Polícia Federal e um país mais digno e justo para se viver. 
Estamos falando desses representantes que aparecem nas manifestações de rua. 
Enquanto o povão não se fizer representar por livre e espontânea vontade, nada acontecerá. Somente as massas têm algum poder de mudança. 
Tudo parece um grande sonho, pois os órgãos superiores responsáveis por esta nação dão sinais de um gigantesco acordo para que tudo continue como dantes. 
Inflação fora do controle, ajuste fiscal remendado, aumento do desemprego e subemprego, greves nos setores básicos ao nosso desenvolvimento, queda da arrecadação, aumento de impostos e maior número de brasileiros sem condições de se manterem em suas mínimas necessidades – tudo continuará assim. 
Enquanto isso, a economia americana nem se recorda mais da bolha imobiliária de 2008, e os preços estão caindo, como no caso da gasolina e dos impostos. 
Até a Grécia apresenta sinais de recuperação na sua economia! A Europa ressuscitou da sua má fase. Não vejo a hora em que seremos ultrapassados por Cuba.  
Ficaremos em companhia da Venezuela, Haiti, Nicarágua e Bolívia. 
E a nossa gente, mais esclarecida, indignada, permanece em casa, pois não temos líderes. 
Assim como importamos médicos para resolver o problema da nossa saúde pública, chegou o momento de importamos líderes. 
É o que enxergamos no horizonte conturbado do nosso futuro.