27 de mai de 2015

Verdade, por Gabriel Novis Neves

Verdade 
A nossa educação vai de mal a pior. 
Múltiplos fatores compõem os ingredientes do atraso nacional. Seria estafante enumerá-los, sendo a maioria do conhecimento público. 
Esse processo “maligno” talvez tenha início logo nos primeiros dias da vida extrauterina. 
Embora nessa idade a criança não possua ainda capacidade de entender a falta da verdade nas relações entre pais e filhos, é intuída desde muito cedo. 
Educadores modernos e mais esclarecidos recomendam que, mesmo nesses primeiros dias, há necessidade dos pais conversarem com os seus filhos transmitindo todo seu amor e usando sempre a verdade. 
De tanto ouvir o certo, essa criança, ao adquirir seu poder cognitivo, dificilmente se surpreenderá ou ficará traumatizada com aquilo que desde cedo se acostumou a ouvir. 
Como exemplo, poderei citar o caso das crianças adotadas.
Seus pais não biológicos, apesar de todo o amor dedicado a elas, têm dificuldades em saber se dizem a verdade sobre a sua origem genética ou não. 
Em que fase da vida dessa criança seria o momento ideal para a revelação? 
Pesquisas apontam que muitos pais preferem esconder dos seus filhos não biológicos a sua correta identidade. 
Quando a criança fica sabendo sobre a sua origem real, o trauma é muito intenso.
Outros deixam para o tal momento oportuno, que é inoportuníssimo quando adulto o filho descobre que seus pais são mentirosos, numa hipócrita situação de falsa proteção. 
A criança tem de ouvir desde o início que ela não saiu da barriga da mamãe, mas, é tão querida e amada como se assim o fosse. 
A mania de esconder a verdade das crianças parece fazer parte da nossa cultura. 
Isso é comum numa educação onde é descoberta pelos filhos a mentira como modo de vida, não só com relação a ela, criança, mas, principalmente, no relacionamento pouco afetuoso e, até mesmo, distante entre os pais, entre os circunstantes e entre os ditos amigos da família. 
Os resultados dessa farsa cotidiana serão a falta de intimidade e o aparecimento de adultos distantes e igualmente hipócritas. 
A família deixa de cumprir o seu papel precípuo, onde os problemas e dúvidas de todos deveriam ser discutidos abertamente. 
Quando as novelas de televisão, em horário nobre, há anos vêm questionando sobre adoção de crianças, fica nítido o preconceito que jamais deveria existir sobre o filho não biológico. 
Uma reflexão sobre esse assunto torna-se imperativa. 
Os pais deveriam aprender a dizer sempre o “sim” aos seus filhos, como início do diálogo. 
Daí surgiria os argumentos que poderiam levar a um “não” antes de qualquer reflexão conjunta, mas sempre muito discutida, nunca por imposição. 
A educação necessita urgentemente da reformulação de conceitos no sentido de preparar um adulto verdadeiro, cônscio de seus direitos e deveres, e não mais um fantoche habilitado para a mentira e para a hipocrisia. 
O início tem de ser em casa, sem artifício da mentira, incompatível com a educação. Só a verdade, desde sempre, salvará as nossas crianças. 
Educar é muito mais do que propiciar colégios caros e alimentação de qualidade. 
É preciso que filhos crescidos não experimentem esse verdadeiro estranhamento familiar, hoje tão frequente nos lares modernos. 
Só se pode amar a quem se conhece verdadeiramente, o resto é puro comércio e seus slogans exaltando o “Dia dos Pais” e o “Dia das Mães” como símbolos falsos de um amor fabricado para ser consumido.

26 de mai de 2015

Novo hospital, por Gabriel Novis Neves


Novo hospital 
Notícia ruim é o que não falta quando o assunto é saúde pública.
Foi inaugurado em nossa capital o prédio reformado do velho Hospital Neurológico Egas Muniz, no bairro do Quilombo. 
A hotelaria ficou chique, digno de hotel cinco estrelas. 
O ruim é que logo após a sua inauguração o nosocômio foi fechado, para reabrir somente quando o governo federal decidir repassar recursos permanentes para o seu custeio. 
Sabemos que essa liberação poderá demorar meses, e a garantia de um apoio permanente é uma aposta. 
O único hospital público federal e de ensino aqui existente está sucateado, exatamente por falta de investimentos financeiros. 
Em inauguração de hospital a má notícia é que não existe ainda formado, treinado e contratado o corpo clínico e administrativo. 
A referência do hospital são seus profissionais, e não, a hotelaria. 
A dificuldade do governo é tão grande para captar bons profissionais, que a única Unidade de Pronto Atendimento (UPA) inaugurada há dois anos até hoje não funcionou na sua plenitude. 
Não é atrativo, profissionalmente, trabalhar em prédio ‘novo’ e bonito, mas sem as mínimas condições de trabalho, e honorários sempre abaixo do mercado de trabalho.
O paciente quando procura um serviço de saúde prioriza a qualificação dos seus profissionais. 
A hotelaria de luxo é dispensável. Torna-se obsoleta em curto prazo de tempo, e necessita de permanente manutenção e reposição dos equipamentos. 
Não é isso que acontece nos órgãos públicos. 
Sem robustos financiamentos públicos para a alta complexidade, o ‘jeitinho’ são as liminares judiciais. 
Mesmo hospitais internacionalmente reconhecidos cientificamente pela excelência do seu atendimento, como o Sírio Libanês e Albert Einstein em São Paulo, para citar os preferidos pelos políticos, precisam de incentivos oficiais (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e de particulares para sobreviverem com qualidade. 
Vamos torcer para que o nosso São Benedito consiga transpor essa barreira de incompreensão do poder público com a saúde para oferecer serviços médicos de ‘gente rica para uma população pobre’.

25 de mai de 2015

Mundo cartesiano, por Gabriel Novis Neves


Mundo cartesiano 
Não, realmente o mundo do tempo cronometrado, dos compromissos, dos relógios, não é o mundo ideal. 
Talvez, por essa razão, quando estamos em férias a vida se torna tão mais prazerosa e lenta. 
Bem, isto para aqueles que conseguem se desconectar de suas excessivas responsabilidades. 
O mundo cartesiano foi feito para aprisionar as pessoas nos seus devidos papéis, sempre dentro de um mínimo de tempo para pensar, tornando-as cada vez mais automatizadas. 
Raramente paramos para um questionamento sobre como estamos usando o nosso tempo, nos agradando ou não. 
Talvez, por isso mesmo, a noite seja um espaço tão fascinante. 
É a hora em que podemos nos desvencilhar de todas as nossas máscaras, de nosso aprendizado de vida estruturada, dos compromissos com o estabelecido e mergulharmos no que verdadeiramente nos agrada. 
É justo o momento em que o ócio criativo tem condição de se manifestar, acalentado pelo silêncio da madrugada. 
Assusta-me ver pessoas que, mesmo em férias, não desgrudam um só momento de seus relógios, de seus Smartphones, como se as tarefas a serem cumpridas, mesmo inexistentes, permanecessem o foco de suas atenções, impedindo assim que o pleno exercício do lazer seja desfrutado. 
Esquecem-se de que, a rigor, o tempo não existe, ele é apenas uma invenção do homem na ânsia de transformar a natureza. 
Somos a única espécie animal dedicada a transformar a natureza. Os nossos outros amigos apenas a desfrutam. 
O mundo cartesiano tomou conta de tudo e é negado aos jovens o que há de mais precioso para o ser humano, a criatividade, o prazer sem culpa, sem risco, sem hora marcada. 
Na impossibilidade de ver estrelas, estamos nos habituando a pedir socorro uns aos outros através de redes sociais, clamando por um pouco de atenção que esse mundo tão estereotipado nos impede que aconteça. 
Falta-nos tempo para o outro e, principalmente, para nós mesmos. 
Apenas na velhice, assim mesmo somente para alguns privilegiados, se consegue valorizar a dádiva do não ter horários nem compromissos, podendo assim desfrutar da natureza em toda a sua plenitude. 
Para mim, o melhor da velhice é não ter horários.

24 de mai de 2015

Meu avô, por Gabriel Novis Neves

Meu avô
“Pau que nasce torto, nunca mais se endireita”, sempre dizia meu avô.
Os mais antigos tinham o hábito de se comunicar por metáforas, “que é a transferência de sentido de um termo para outro, numa comparação implícita”.
São conceitos simples de serem entendidos e nunca esquecidos.
Vira e mexe estou envolvido nessas antigas expressões que moldaram o meu caráter.
Às vezes tento corrigir esses adágios aprendidos nos primeiros anos de vida, mas logo desisto pela impregnação que eles me produziram.
“Duas retas paralelas jamais se encontrarão”. Quem garante isso?
Pessoas não são iguais, mesmo pertencentes à mesma árvore genealógica. No entanto, encontramos muitos desiguais absolutamente semelhantes, como a ilusão da linha do horizonte tocando a terra.
Se tão diferentes em seus princípios tornam-se iguais, encontramos iguais totalmente desiguais, inviabilizando até o mais simples convívio social.
Assim como existe a reta curva, como no autódromo do Principado de Mônaco, onde se disputa a charmosa e riquíssima Fórmula 1, deve existir a curva reta em alguma arquitetura oriental.
É difícil encontrar desiguais iguais que se identifiquem a ponto de mesclarem suas desigualdades, transformando-se em seres iguais, ou em retas que se misturam.
Quando isso acontece, recordamos que duas linhas paralelas nunca se encontram...
Interessante é que as pessoas procuram para seus relacionamentos pessoas semelhantes, na ilusão de estarem escolhendo a correta e duradoura união.
A matemática da vida tem outras regras, não sabia o meu avô...

23 de mai de 2015

Partidos políticos, por Gabriel Novis Neves

Partidos políticos 
Para que serve os nossos partidos políticos quando estamos mergulhados em imensa crise econômica e moral?
Só agora a população brasileira descobriu a sua ‘utilidade’ pelo generoso aumento de recursos concedido pelo governo ao Fundo Partidário.
O Ministro da Fazenda adota a política do arrocho fiscal e pede a compreensão da nossa exausta população, o executivo corta recursos da educação e ‘investe’ nos partidos políticos.
Passeatas populares, caminhadas, panelaços, campanhas pelas redes sociais, tudo sem participação dos políticos e de seus respectivos partidos são sinais de impaciência de uma nação em desespero, cuja leitura o governo não consegue, ou não quer, entender.
Há necessidade urgente de novos rumos para a nossa arcaica política.
Virou ‘negócio de ocasião’ criar uma sigla partidária para receber ‘bolsa’ do governo, chamada de Fundo Partidário.
No momento existe uma lista de mais de vinte agremiações políticas solicitando seu registro no Tribunal Federal Eleitoral para se juntar aos mais de trinta existentes.
Temos até especialistas em criação dessas inúteis agremiações, como o ex-prefeito de São Paulo. 
Trata-se de um ‘investimento’ altamente lucrativo, sem os riscos que normalmente outra empresa enfrentaria.
A finalidade desses anões partidários, que nem representantes possuem no Congresso Nacional, vão além da ‘bolsa’ - vão até aos segundos de televisão comercializados durante as campanhas eleitorais.
Outros possuem pontos de representantes sem ideologia, cuja única função é negociar seus votos.
Os maiores partidos representam o poder e interesses de grandes grupos econômicos e sindicatos. O povo não reconhece nos atuais partidos e nos políticos seus legítimos porta-vozes em Brasília.
O pior é que para ocupar uma cadeira no Congresso, Assembleias e Câmara de Vereadores, seus membros são eleitos pelo povo.
Pesquisas recentes demonstram que a maioria da nossa população não se lembra em quem votou na última eleição.
O que fazer com os partidos diante da crise que envolve o nosso país?
Uma metamorfose é necessária para criar uma agenda positiva de trabalho, com o único objetivo de alcançar o nosso já tardio desenvolvimento social e econômico. 

22 de mai de 2015

Meio-irmão, por Gabriel Novis Neves


Meio-irmão 

Relevante o fato de ter aumentado em 528% o número de reproduções assistidas nos últimos dezoito anos pelo mundo. 
Os bancos americanos de sêmen são atualmente verdadeiros templos da reprodução. 
No início, a grande procura era feita por relações homoafetivas femininas que queriam ter os seus rebentos sem a participação da figura masculina. 
Um doador, dentro dos padrões desejados em termos de compleição física e mental, chega a receber cem dólares por doação. Basta que ele se adeque a padrões preestabelecidos.  
Na maior parte dos países essas doações são sigilosas e o material recolhido passa a ser catalogado por número. 
Dessa forma permanece oculta a identidade do doador, mantendo-se em conta somente as suas características genéticas. 
Atualmente, países como a Alemanha, Inglaterra e a Noruega, aboliram o anonimato e isso vem causando algumas discussões éticas e que começam a chegar ao Brasil. 
Através da mídia, sempre precursora dos modismos de cada geração e suas implicações na sociedade, já assistimos a novelas que já discutem abertamente os diferentes tipos de família que vêm se formando nos tempos modernos. 
Agora surge a polêmica sobre os irmãos numerados dos doadores de sêmen. 
O ser humano tem necessidade de saber das suas origens, mesmo que oriundo de vários tipos de reprodução. 
Esses questionamentos, que estão apenas começando e que já compõem até enredo de novela, são sinais de um novo tempo despontando. 
Imaginando que alguém possa ter até quinhentos ou mais irmãos, que rumo tomará as relações familiares? 
Os laços afetivos, com certeza, começam a aparecer como mais importantes que os laços sanguíneos. 
Nem o filósofo Aldous Huxley conseguiu ir tão longe com suas fartas elucubrações sobre o futuro no seu fantástico “Admirável Mundo Novo”. 
Um trabalho a mais para as futuras gerações: buscar seus inúmeros meios-irmãos, se é que até lá isso ainda terá alguma importância.