3 de ago de 2015

Turismo sexual, por Gabriel Novis Neves

Turismo sexual 
Lamentavelmente somos conhecidos no mundo por sermos um dos roteiros mais procurados para turismo sexual. A bela cidade do Rio de Janeiro e o nordeste brasileiro são os alvos preferidos.
Cantado em verso e prosa como o país das mais belas e sensuais mulheres do planeta, vendemos, com orgulho, essa triste imagem que, no fundo, apenas escancara a nossa miséria.
O nordeste brasileiro, tristemente vinculado ao turismo sexual infantil, conta com o assédio de pedófilos de todas as partes do mundo, que já adquirem seus pacotes de viagem com a inclusão do comércio de meninos e meninas.
Tal realidade nos envergonha e nos humilha perante o mundo, porém, muito pouco tem sido feito para mudar esse estado de coisas, sempre mais difíceis nos momentos de crises e de miséria avassaladoras.
Entretanto, diante do aparecimento nos Estados Unidos de alguns sites oferecendo as chamadas “sugar babies”, passamos a fazer alguns questionamentos.
São moças frequentadoras das grandes universidades americanas que se oferecem como companhias descompromissadas para homens mais velhos, mais abastados, em troca do pagamento de suas mensalidades universitárias.
Como todos sabem, as universidades americanas são muito caras, podendo chegar a cifras anuais em torno de trinta e cinco mil dólares, portanto, inacessíveis às jovens de classe média.
Esses sites são considerados perfeitamente legais e seus usuários não estão sujeitos a qualquer tipo de legislação contra a prostituição.
Sociedades hipócritas e pseudomoralistas, mesmo em países de primeiro mundo, não se diferenciam muito das tupiniquins, a não ser pelo tamanho do rombo que a miséria causa.
A prostituição complementar, aqui como lá, apenas com maior ou menor intensidade, rotula os que a ela recorre.
Enfim, a prostituição é sempre a mesma, seja ela para fins culturais ou simplesmente para mitigar a fome.
Realmente, comportamentos morais suscitam muitas interpretações!


2 de ago de 2015

Futebol, por Gabriel Novis Neves

Futebol 
O nosso antigo melhor futebol do mundo, chamado de futebol arte, também pegou carona no péssimo momento de crise que vive o nosso país. 
Está em franca descida para o abismo da mediocridade. 
Fomos atacados pela corrupção na venda dos nossos craques para as nações mais ricas - envolvidos nos escândalos das “escolhas” das sedes dos últimos campeonatos mundiais. 
Finalmente veio a renúncia do presidente da FIFA, acusado de corrupção após vinte anos de mandato. 
Com ele, a prisão de vários dos seus assessores pela polícia da Suíça. No pacote de investigados e presos estava o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 
Esse escândalo internacional repercutiu em todas as mídias do mundo, obrigando o Senado Federal, por iniciativa do tetracampeão mundial de futebol, hoje senador Romário, a solicitar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). 
O povo brasileiro deseja saber quem são os responsáveis pelo desmanche do nosso mais popular esporte. 
A nossa participação em competições internacionais, para uma nação pentacampeã do mundo em futebol, é simplesmente alarmante e inaceitável. 
Perdemos a Copa do Mundo ano passado pelo resultado humilhante de 7X1 para os alemães e depois de 3X0 para os holandeses, o terceiro lugar da maior competição futebolística do planeta Terra.
Este ano no Chile perdemos a Copa das Américas, onde não nos classificamos nem entre os quatro melhores países. 
Ficamos atrás do Chile (campeão), Argentina (vice), Peru (3º lugar) e Paraguai (4º lugar). 
Para completar o ciclo de humilhações, o Internacional de Porto Alegre foi eliminado facilmente pelo Tigres do México na Taça Libertadores. 
O antigo ópio do povo, que era o futebol que encantava multidões, foi substituído por estádios vazios e pela indignação. 
Tudo que o governo faz neste momento para salvar o nosso futebol são cuidados paliativos. 
Estamos em estado terminal também na paixão esportiva do brasileiro.

1 de ago de 2015

Oito ou oitenta, por Gabriel Novis Neves

Oito ou oitenta
Tenho observado como o humor de certas pessoas transita no decorrer do dia. Vai do mais baixo astral à euforia total.
Há dias visitei um amigo pela manhã. Tudo para ele estava muito ruim em termos físicos, psíquicos e materiais.
Ao conversar comigo, não conseguiu conter as lágrimas de sofrimento. Queixou-se da situação em que vive o nosso país, da sua completa adinamia e até de problemas financeiros e amorosos.
Disse que a solidão é a sua permanente companhia, e o nosso calor o seu maior inimigo, chegando a ser um verdadeiro castigo.
Deixei o encontro completamente arrasado e preocupado com a situação daquela pessoa tão querida! Gostaria de ajudá-lo, sem nem ao menos saber por onde começar.
À noite voltei a procurá-lo e não acreditei naquilo que presenciei. Mesmo com a derrota do seu time do coração, ele estava otimista, falante e, o mais interessante, não se queixava de nada, mesmo com o nosso calor sufocante.
Fiquei sem entender a tudo que assistia em profundo silêncio. Preferi ouvi-lo contar as novidades de maneira muito agradável.
Deixei a companhia do amigo bem tranquilo, embora, sem entender o que acontecera.
No dia seguinte, por pura curiosidade, perguntei a sua competente e de extrema confiança cuidadora, se algo acontecera no intervalo das minhas visitas.
Com a discrição de uma profissional, relatou apenas que durante longo tempo o meu amigo havia conversado ao telefone e, ao encerar a ligação, era outra pessoa. Sofrera uma metamorfose auditiva.
Invadindo a sua privacidade, tentei ainda saber da sua acompanhante detalhes desse telefonema terapêutico.
Único dado que consegui é que isso acontecia sempre.
Foi o suficiente para, pelo menos, chegar a uma hipótese diagnóstica - alguém à distância lhe faz muito bem.
É uma resposta racional para tentar explicar a história do oito aos oitenta no humor de certas pessoas.

Enluarada, de Valéria del Cueto

Leme Lua 150730 010 Pedra do leme, Lua calçadão boaEnluarada

Texto e foto de Valéria del Cueto
Seu contorno sedutor movia-se pelo piso num tempo quase parado.
Uma aula de perspectiva geométrica das sombras que delimitavam o espaço concedido para receber sua intensa luminosidade.
Pela fresta da janela era ela. Tão bela!
Esparramando-se por seu espaço circular, ofuscando a vizinhança do céu com a claridade enquanto por aqui, de tão nua, sua luz fazia sombras nas coisas da terra.
Dava para andar no mato sem lanterna nem cachorro, com a luz que vinha dela, imaginava se deliciando a cronista em sua cela.
*clique AQUI  para continuar a leitura
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO -SABADO 01-O8-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

31 de jul de 2015

Papa Francisco, por Gabriel Novis Neves

Papa Francisco 
Em sua peregrinação pelo Equador, Bolívia e Paraguai o Papa Francisco mais uma vez surpreendeu o mundo ao discursar no “Encontro dos Movimentos Sociais”. 
Com a sua franqueza habitual, sabedoria e muita diplomacia, deixou o seu recado em uma importante reunião de líderes e dirigentes sociais latino-americanos.  
A impressionante ressonância mundial foi imediata. Vozes discordantes apareceram advertindo que suas palavras não deviam ser levadas a sério. 
Tudo isso porque o Papa disse que “o capitalismo é um sistema esgotado, que já não se sustenta, que os ajustes sempre são feitos à custa dos pobres, que não existe tal coisa como o derrame da riqueza das taças dos ricos, que destrói a casa do comum e condena a Mãe Terra”. 
O Papa revolucionário também condenou os monopólios como uma grande desgraça, disse que o capital é o “estrume do dinheiro”, que se deve cuidar do futuro da Pátria Grande e estar em guarda frente às novas formas de colonialismo. 
Com suas palavras, Francisco abriu um espaço enorme para avançar no sentido de neutralizar a ideologia dominante, que difunde que o capitalismo é a única forma sensata – e possível – de organização econômica e social. 
O histórico discurso do Papa na Bolívia instalou no imaginário público a ideia de que “o capitalismo é um sistema desumano, injusto, predatório, que deve ser superado mediante uma mudança estrutural”. 
Graças às suas palavras estamos em melhores condições para vencer a batalha de ideias de forma a convencer todas as classes oprimidas, as principais vítimas do sistema, de que é preciso acabar com o capitalismo, antes que esse infame sistema acabe com a humanidade e com o planeta, no dizer do sociólogo argentino Atílio Boron. 
O Papa Francisco tem como prioridade a defesa dos três T: Terra, Teto e Trabalho. 
Com relação ao problema grego, ele alerta ao mundo para as novas formas de neocolonialismo que recrudescem no mundo. 
Mais do que o representante máximo da religião católica, Francisco vem se tornando um dos maiores símbolos, não de religião, mas de algo muito mais difícil de ser praticada, a religiosidade.

30 de jul de 2015

Nostalgia, por Gabriel Novis Neves

Nostalgia
Há alguns dias, no Rio de Janeiro, voltando do teatro, onde assisti a uma peça de forte apelo especulativo existencial, fui arrebatado pela saudade do passado.
Ainda embalado pelo clima  de grande prazer, em que todo o sistema emocional, assim como todo corpo, recebeu  doses generosas de serotonina e de endorfina,  me senti estonteado diante de uma noite cálida e estrelada.
Após um jantar que  aguçou todos os meus sentidos, a volta para casa, sempre beirando as praias cariocas deslumbrantes, fui tomado  por uma imensa nostalgia ao lembrar daquele lugar mágico em que eu vivi durante doze anos da minha juventude.
Em nada se assemelhava à cidade que pulsava dia e noite e que me fazia vibrar.
Figuras típicas das noites cariocas, tais como, vendedores de flores, boêmios em seus bares famosos, pequenos redutos de encontro  de artistas e poetas, boates  de fracas luzes  em que pianos discretos embalavam  casais de namorados num abraço sem fim, socialites  famosas  marcando presença  em restaurantes  da moda, enfim, tudo isso é coisa do passado.
Os altos custos dos alugueis e manutenção dos espaços de entretenimento, aliados à violência crescente nos últimos vinte anos, afugentaram os empresários da noite e ela foi se esvaindo ou migrando para áreas da periferia de mais baixo poder aquisitivo.
Surgiram os bailes funk, coqueluche da garotada dessas regiões.
Ao contrário, na zona sul, encontro ruas desertas, mesmos as principais com uns poucos carros e uns poucos corajosos que se arvoram a desafiá-las, já que a violência atingiu níveis insuportáveis.
Mesmo assim, assola-me um desejo abrupto de sair a esmo passeando de carro, o que há vinte anos era uma rotina.
Desestimulado por meus acompanhantes, todos cariocas, logo me apercebo que o mundo mudou e que a hora é de voltar para o meu casulo  onde, certamente, me sentirei mais protegido.
Afinal, para que servem as grandes e belas cidades  se nem mais conseguem acolher os seus visitantes e moradores?
Cidade como o Rio de Janeiro que, tal como Nova York, era tida como a cidade que nunca dormia, não mais dispõe  de ambientes para bebericar, ouvir um bom piano, dançar  ao som de bom cantor/a que tentava a fama  , enfim, espaços em que a noite parecia não ter fim.
Triste constatar que tudo isso acabou e o que vemos é uma cidade fria, distante de sua população antes tão alegre e divertida e, agora, sufocada pelo medo e pela apatia.